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Uma cidade para todos? Quando a acessibilidade ainda depende de sorte.

Foto do escritor: Renata Menezes
Renata Menezes
29 de set.
4 min de leitura

Uma cidade pode ter rampas, elevadores, piso tátil e ônibus adaptados e, ainda assim, estar longe de ser verdadeiramente acessível.

Isso acontece porque acessibilidade não começa na entrada de um prédio.

Ela começa muito antes.

Começa na calçada que pode ser percorrida sem obstáculos. Na faixa de pedestres que oferece segurança para atravessar. No transporte que permite embarcar e desembarcar com autonomia. Na informação que consegue ser compreendida por diferentes pessoas. No banheiro que realmente pode ser utilizado por quem precisa dele.

E começa, principalmente, na possibilidade de alguém simplesmente sair de casa sem precisar planejar cada passo pensando nos obstáculos que poderá encontrar pelo caminho.


Afinal, para quem as cidades foram pensadas?


Durante muito tempo, o planejamento das cidades partiu de uma ideia bastante limitada sobre quem utilizaria aqueles espaços.

Como se todas as pessoas enxergassem, escutassem, caminhassem com facilidade, conseguissem subir escadas, atravessar rapidamente uma rua e circular pelos ambientes sem precisar de qualquer adaptação.

Mas a vida real é muito mais diversa.

Há pessoas que utilizam cadeiras de rodas, bengalas, muletas ou andadores. Pessoas cegas ou com baixa visão. Pessoas surdas ou com deficiência auditiva. Pessoas com deficiência intelectual, pessoas autistas e pessoas com diferentes necessidades de comunicação, mobilidade e orientação.

Essa diversidade não deveria ser considerada apenas depois que os espaços já estão prontos.

Ela deveria fazer parte do projeto desde o início.

Porque pessoas com deficiência não são uma exceção dentro da cidade.

Elas fazem parte dela.


Uma rampa, sozinha, não torna um espaço acessível


Imagine uma pessoa que utiliza cadeira de rodas.

Na saída de um edifício existe uma rampa. Parece acessível.

Mas alguns metros depois há um poste ocupando grande parte da calçada. Mais adiante, o piso está irregular ou a própria calçada simplesmente termina. Na hora de atravessar a rua, existe uma guia rebaixada do outro lado, mas não há um caminho contínuo e seguro até ela.

Nesse caso, o problema não está necessariamente na falta de uma adaptação específica.

O problema está na interrupção do percurso.

A acessibilidade precisa funcionar como uma rede.

Não adianta tornar apenas um ponto acessível se todo o caminho até ele continua criando barreiras.

A experiência precisa ser contínua.


Acessibilidade também significa poder compreender


Nem todas as barreiras de uma cidade são físicas.

Uma informação transmitida apenas por áudio pode excluir uma pessoa surda ou com deficiência auditiva.

Da mesma forma, uma comunicação exclusivamente visual pode não atender adequadamente uma pessoa cega ou com baixa visão.

Sinalizações complexas, pouco intuitivas ou excessivamente carregadas também podem dificultar a compreensão para pessoas com diferentes necessidades cognitivas.

Por isso, falar sobre acessibilidade também é falar sobre comunicação.

É pensar em diferentes formas de informar, orientar e permitir que cada pessoa consiga se deslocar e tomar decisões com mais autonomia.


E o que acessibilidade tem a ver com sustentabilidade?


Quando pensamos em sustentabilidade, é comum lembrarmos de temas como resíduos, consumo de água, energia, embalagens, biodiversidade e mudanças climáticas.

Todos esses assuntos são fundamentais.

Mas existe outra dimensão da sustentabilidade que também precisa fazer parte dessa conversa: a dimensão social.

Uma cidade sustentável precisa ser uma cidade possível de ser vivida por todas as pessoas.

Não basta reduzir impactos ambientais enquanto parte da população continua encontrando dificuldades para acessar espaços, serviços, educação, trabalho, lazer e oportunidades.

Sustentabilidade também envolve participação, autonomia, dignidade, permanência e qualidade de vida.

Construir um futuro mais sustentável também significa construir espaços onde diferentes pessoas possam existir e participar plenamente.


Corpos reais também fazem parte das cidades


Na Oleum Vegan, acreditamos que a vida real não precisa se encaixar em padrões perfeitos.

E talvez essa mesma reflexão também possa ser levada para a forma como pensamos nossas cidades.

Existem corpos diferentes.

Existem ritmos diferentes.

Existem diferentes maneiras de caminhar, enxergar, ouvir, compreender, comunicar e ocupar um espaço.

Quando uma cidade é projetada considerando apenas um modelo ideal de pessoa, todos aqueles que não correspondem a esse padrão acabam encontrando barreiras.

Por isso, acessibilidade não deveria ser entendida como um favor, uma concessão ou apenas mais um detalhe dentro de um projeto arquitetônico.

Acessibilidade é cidadania.


Como reconhecer uma cidade realmente inclusiva?


Talvez a pergunta não devesse ser apenas:

“Existe acessibilidade aqui?”

Talvez seja mais importante perguntar:

“Uma pessoa com deficiência consegue utilizar esse espaço com segurança e autonomia?”

Ela consegue sair de casa?

Ir ao trabalho ou estudar?

Fazer compras?

Entrar em um restaurante?

Utilizar um banheiro?

Frequentar uma praça?

Pegar um ônibus?

Acessar um serviço público?

Encontrar amigos?

E depois retornar para casa com segurança?


Quando essas atividades podem acontecer sem que a pessoa dependa constantemente de ajuda, improvisos ou sorte, começamos a falar de uma cidade verdadeiramente inclusiva.


Porque inclusão não significa apenas permitir que alguém entre.

Significa permitir que essa pessoa participe.

Uma cidade acessível é aquela em que ninguém precisa lutar contra o próprio espaço urbano para conseguir viver nele.


E talvez essa seja uma pergunta que deveríamos fazer sempre que planejamos uma rua, um prédio, uma praça, um comércio ou qualquer outro espaço coletivo:


Estamos construindo cidades para pessoas reais ou apenas para um modelo ideal de pessoa?

 
 
 

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